sábado, 15 de abril de 2017

Nossos Judas

Na minha infância, quando morava em Parnaíba, havia uma tradição popular, nos sábados de aleluia, que não esqueço. Embora não tenha religião, a prática cristã de malhar o Judas sempre me chamou atenção. Fazia-se um boneco, vestido como alguém que se queria malhar e ele era pendurado para, ao longo do dia, ser batido por quem quisesse. Por fim, era queimado.

Ano após ano,  tenho me valido dessa tradição para malhar virtualmente nossos Judas contemporâneos.

Nas minhas listas já figuraram Cabral, Paes, Feliciano e tantos outros traidores do povo. A lista é enorme. Permanecem todos nela. Ano passado, por exemplo, era tanta gente, e não só da vida política, que foi impossível escrever nomes. A lógica atual é a mesma. Mas não há como deixar de citar, nominalmente, o temeroso. Em menos de um ano à frente do executivo, Temer já cortou verbas da saúde e da educação por 20 anos e vem se esmerando na retirada de direitos trabalhistas, a começar pela previdência. Seu partido, o pmdb, é o símbolo das maracutaias, das negociações escusas, das barganhas. 

No Rio, passamos pela gestão do Paes, no município, e a do Cabral, seguida do Pezão, no estado. Estamos num momento de calamidade. A tal herança dos jogos olímpicos não existe. Ficou a roubalheira. A UERJ, a UENF e a UEZO lutam cotidianamente pela sobrevivência. A situação é precária.

Todo esse grupelho político que está no poder representa a precarização e o desmonte dos serviços públicos, a retirada de direitos trabalhistas, o diálogo com fascistas, a retomada de discursos de ódio, expressos em racismo, machismo, lgbtfobia,  opressão das populações indígenas. Eles representam a leviandade da gestão dos recursos públicos. Mas não é incompetência não, é projeto mesmo. Projeto de enriquecimento próprio e de favorecimento dos grandes negociantes.

Judas é a personificação da traição. A traição é o lugar do óbvio num sistema falido. Traição é ato de covardia. Afinal, ser honesto demanda coragem. Os covardes se utilizam de subterfúgios para esconder-se da realidade. As manobras políticas​ que tanto vemos acontecer no executivo, no legislativo, no judiciário e na mídia são a expressão disso. Por isso, mais do que nunca, é preciso malhar nossos Judas para não esquecer e aprender que com traidores não há conciliação.