sábado, 14 de outubro de 2017

Anticorpos

Era um dia de felicidade
Para trinta dias de tristeza

Eu não estava feliz
Eu estava doente
Tal qual depende químico
Achava que me drogando estava completo
Tal qual alcoólatra
Quanto mais bebia mais pleno me sentia

Tempos ruins
E como toda doença
ficam as sequelas
Espero ir me curando e me livrando desse veneno
Espero que esse mal seja de mim extirpado
Espero estar criando meus anticorpos
E por último
espero mais
que eu não confunda doença
com outro estado de vida.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Todo mundo

Todo mundo querendo ser original, autêntico. 

Todo mundo fazendo as mesmas coisas. 
Todo mundo ouvindo as mesmas músicas,
cantando as mesmas canções.
Todo mundo viajando para os mesmo lugares,
tirando as mesmas fotos. 
Todo mundo lendo os mesmos livros,
fazendo as mesmas citações.
Todo mundo usando os mesmos celulares,
com os mesmo aplicativos, as mesmas redes sociais. 
Todo mundo comendo as mesmas comidas,
gourmetizando a vida.
Todo mundo bebendo a mesma cerveja - artesanal.
Todo mundo sempre muito descolado, 
no maior, melhor e o mesmo astral.
Todo mundo com os mesmos cortes de cabelo,
com um monte de gente cultivando seus pelos.
Todo mundo vestindo as mesmas estampas. 
Todo mundo com o mesmo estilo,
todo mundo sendo alternativo.

Já dizia o poeta cantor: "um museu de grandes novidades".
Ou seria: "eu vejo o futuro repetir o passado..."

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A vida íntima de Laura

Tudo mundo leva a vida com muitos acontecimentos importantes e com fatos comuns. Isso vale pra gente e vale pra bicho também. Você já pensou na vida de uma galinha? Já se perguntou quais problemas ela tem? Como é o seu dia a dia?
"A vida íntima de Laura" não é apenas um livro sobre uma galinha. É um livro sobre Laura, uma galinha "meio marrom, meio ruiva, e de pescoço muito feio". Mas ela é muito mais que isso. E vocês vão descobrir ao ler.
Com essa história, falamos sobre intimidade, beleza, medo. A maternidade da galinha. Sobre comida. Até um habitante de Júpiter faz parte do livro.
A escritora dessa maravilha é minha preferida: Clarice Lispector. Ela adorava animais. Só não gostava de ratos e baratas. Mas quem gosta, né?
Se, após ler esse livro, vocês aceitarem o convite de Clarice, eu também vou querer ler as histórias de galinha de vocês. E não deixem de conhecer os outros livros dela: são incríveis!

Obs.: Escrevi esse texto para meus estudantes do 5o ano, como dica de leitura.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Poesia pra tempos de terrorismos


Não sei se têm serventia os poetas. Não acredito que precisam ter. O poeta existe e isto basta. Na verdade, isto já é tudo.
Foi, contudo, com um poeta que aprendi a nadar. Quem tem esse privilégio? Aprendi a nadar com um poeta! Que experiência mais poética! Ao menos pra mim. De minha parte guardo essa lembrança, mas não sei nem se o poeta lembra de tal ato.
Sei que hoje recebi esse presente. "Para que poetas em tempos de terrorismos?". Talvez, para isso mesmo: para nos lembrar que a poesia é o ato necessário da vida.
E ainda: poética é a troca da vida. E nessa rede que vamos tecendo recebo de presente o livro que presenteie recentemente Heleine. Que maravilha!
Obrigado, Beto!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Relato de uma cidade alagada

Não, prefeito, nós não passamos no teste. Não, não é simplesmente calamidade ou situação inesperada o que aconteceu mais uma vez no Rio na noite do dia 20/6. Historicamente, a cidade alaga. Os bolsões que acumulam água da chuva e provocam um caos no trânsito, em geral, são os mesmos. Temos registros, em foto, de enchentes na cidade desde o início do século passado.
O que enfrentamos, na verdade, é um misto de incompetência administrativa e desinteresse de gestão pela coisa pública. É falta de compromisso. O problema não é novo. E os sucessivos governos que ocuparam a cadeira da prefeitura não o enfrentaram, não o resolveram. E assim seguimos.
0h34. Essa foi a hora que cheguei em casa. Saindo do trabalho, peguei um ônibus, no Humaitá, por volta de 18h20. Passei quase 6 horas dentro do ônibus, num trajeto que normalmente demoro entre 20 e 30 minutos.
Meu ônibus tornou-se o primeiro da fila sentido Gávea e que ficou parado alguns metros após a esquina da rua Jardim Botânico com a Pacheco Leão, pois não conseguiu enfrentar o grande volume de água que havia daquele trecho em diante.
Após quase 6 horas, a solução foi fazer o retorno. O ônibus seguiu para a central sem ter chegado no destino final. Tive que descer em Botafogo e, para chegar na Gávea, pegar um táxi fazendo o trajeto pela orla carioca.
No tempo que passei ilhado no ônibus, vi muitas pessoas se arriscarem pelas grades do Jardim Botânico. Ouvi relatos de cobras que saíram de suas tocas e estavam flutuando na enchente. Pessoas idosas, adolescentes, crianças, jovens, adultas. Cerca de 3 horas depois, após a mídia começar a noticiar a situação, o corpo de bombeiros apareceu. Começou a impedir as pessoas de tentarem a travessia. Depois, começaram a resgatar as pessoas das grades e dos ônibus. Um grupo usava um bote. Outro, uma corda para as pessoas andarem por dentro da água "seguras". Quando chegaram à porta do meu ônibus, perguntei para onde seríamos levados, qual era o plano. Não havia. Apenas levavam as pessoas para o outro lado da calçada, em frente a um mercado, debaixo de chuva. Por segurança, escolhi ficar no ônibus.
É impressionante a falta de estrutura e de posicionamento dos órgãos e das instituições. No dia seguinte, ainda chovia em muitos lugares da cidade. Às 6h da manhã, não havia informação oficial sobre a situação da cidade. Havia um acompanhamento do que estava acontecendo. Ninguém disse para não sair de casa. Ninguém disse que podia sair,  que estava tudo bem. Nenhum órgão deu recomendação. As pessoas estavam perdidas sem saber o que fazer. Cada um teve que decidir por si, assumindo a responsabilidade do que pudesse acontecer. Cadê o prefeito que ia cuidar das pessoas?

sábado, 15 de abril de 2017

Nossos Judas

Na minha infância, quando morava em Parnaíba, havia uma tradição popular, nos sábados de aleluia, que não esqueço. Embora não tenha religião, a prática cristã de malhar o Judas sempre me chamou atenção. Fazia-se um boneco, vestido como alguém que se queria malhar e ele era pendurado para, ao longo do dia, ser batido por quem quisesse. Por fim, era queimado.

Ano após ano,  tenho me valido dessa tradição para malhar virtualmente nossos Judas contemporâneos.

Nas minhas listas já figuraram Cabral, Paes, Feliciano e tantos outros traidores do povo. A lista é enorme. Permanecem todos nela. Ano passado, por exemplo, era tanta gente, e não só da vida política, que foi impossível escrever nomes. A lógica atual é a mesma. Mas não há como deixar de citar, nominalmente, o temeroso. Em menos de um ano à frente do executivo, Temer já cortou verbas da saúde e da educação por 20 anos e vem se esmerando na retirada de direitos trabalhistas, a começar pela previdência. Seu partido, o pmdb, é o símbolo das maracutaias, das negociações escusas, das barganhas. 

No Rio, passamos pela gestão do Paes, no município, e a do Cabral, seguida do Pezão, no estado. Estamos num momento de calamidade. A tal herança dos jogos olímpicos não existe. Ficou a roubalheira. A UERJ, a UENF e a UEZO lutam cotidianamente pela sobrevivência. A situação é precária.

Todo esse grupelho político que está no poder representa a precarização e o desmonte dos serviços públicos, a retirada de direitos trabalhistas, o diálogo com fascistas, a retomada de discursos de ódio, expressos em racismo, machismo, lgbtfobia,  opressão das populações indígenas. Eles representam a leviandade da gestão dos recursos públicos. Mas não é incompetência não, é projeto mesmo. Projeto de enriquecimento próprio e de favorecimento dos grandes negociantes.

Judas é a personificação da traição. A traição é o lugar do óbvio num sistema falido. Traição é ato de covardia. Afinal, ser honesto demanda coragem. Os covardes se utilizam de subterfúgios para esconder-se da realidade. As manobras políticas​ que tanto vemos acontecer no executivo, no legislativo, no judiciário e na mídia são a expressão disso. Por isso, mais do que nunca, é preciso malhar nossos Judas para não esquecer e aprender que com traidores não há conciliação.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O taxista

O taxista vinha contando história. Era negro e praticamente um senhor de idade. Entre uma e outra narrativa da vida, avançava um sinal, parava em cima de uma faixa de pedestre. Voltava a outra história. De repente, vem com a "filosofia" do "bandido bom é bandido morto". Filosofia? Antropologia? Ciência social?
Não consigui ter reação. Aquele taxista ali avançando sinais e defendendo o policial
que exterminou o menino já baleado, no chão, dizendo que ele, o pm, estava certo: "Tem que matar mesmo! Aquele ali não tinha mais jeito"!
Nesses momentos, sempre fico pensando: o jovem negro fuzilado pela ação policial, na viela da favela, ou em qualquer outro lugar, podia ser eu. Não sei lidar com isso! Silencio! Silêncio! Me desculpem!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

"O que eu queria mesmo ser é a Cássia Eller"

Naquela época, a população em geral que não fazia viagens de avião.  Minha irmã tinha nascido havia 8 meses, e, depois de alguns anos, era momento de ir visitar minha vó. Eu morava no Rio há 5 anos. Viajar para o nordeste era - e, na verdade, ainda é - muito caro. Ainda mais por sermos 3 pagantes. Minha mãe só poderia viajar de avião com a bebê. E assim o foi, do Rio a Teresina; depois, 5/6h de ônibus até Parnaíba. Naqueles tempos, o aeroporto local não recebia nenhum voo.
Eu e meu padrasto seguimos naquela longa jornada de cerca de 3 dias de ônibus. Eu me preparei para tanto céu e tanta estrada da melhor maneira que pude. Naquele natal, ganhei os 4 primeiros livros do Harry Potter. E foi na ida e na volta que os li. Tinha também a inseparável companhia do meu discman. Comprei um porta-cd e escolhi meus CDs preferidos para me acompanhar. Lembro muito de dois deles. "Elétrica", da minha conterrânea Daniela, afinal, "o que herdei de minha gente nunca posso perder". Mas, a minha paixão absoluta daquele ano era o "Acústico MTV" dá Cássia. Eu ouvia todos os dias. Durante a viagem, foram muitas vezes por dia.
Eu tinha 15 anos, e aquela voz marcante e aquele risada da Cássia me elevavam a alma. Uma noite antes de chegar ao destino final, tive um sonho com a Cássia. Não lembro mais o que aconteceu no sonho. Já devo ter escrito em algum lugar, mas não encontrei o registro. No dia seguinte, ao chegar na casa de minha vó, vem minha mãe pelo corredor e me dá a notícia: Cássia Eller morreu. Foi um choque. Nunca mais esqueci aquele momento e a sensação da oportunidade perdida por nunca ter visto Cássia ao vivo, no palco. Nem mesmo encontrei com ela em Laranjeiras, bairro em que morávamos.
Há 15 anos, Cássia partia. Hoje em dia, esbarro por aí com Chicão, seu filho, e vejo Cássia no sorriso dele, uma rápida ruptura naquela frustração.
De uma maneira ou de outra, Cássia permanece na minha vida. As canções que ela gravou são difíceis de serem ouvidas em outras vozes, mesmo aquelas que ela própria deu diferentes versões. Como diria a canção, "o que eu queria mesmo ser é a Cássia Eller".